Da janela lateral observo essa cidade, e assim faço desde que cheguei. Há 28 anos atrás decidi vir pra cá por amor e por ele fiquei.
No meio de uma asa que penava pra voar um avião ainda sem plano, instalei minhas panelas de barro e armário de cachaças, trazendo cheiro de café com pão de queijo. Com uma cervejinha gelada e um cadin de prosa conquistei Brasília e oficializei a mineirice na capital.

Mas longe de manter a maior de nossas tradições, não comi quieto. Servi com muito barulho! Nas bocas de nosso fogão e nas bordas de nossos copos a fartura e o sorriso. Na parede de tijolos, limitada pelos banheiros, artistas e plateia inventaram um palco em que cantam e dançam no mesmo nível. Estrondoso e subversivo lancei livros, políticos, revistas, opiniões, cachaças, campanhas, discos e ao espaço a caretice de uma cidade geométrica que se recusava a tomar forma.
Comemorações e uma pá de choradeira em um bar que celebrou e vida em nascimentos e “falecidas”. Em minhas mesas foram servidas copas do mundo e eleições pelos mesmos garçons que contiveram gritos e engoliram choro pra trabalhar com um sorriso. Aliás, quando um garçom te trata tão bem quanto os nossos ele não te serve. Faz companhia.

Aí eu percebo que lá vão 28 anos e me perco num pensamento: qual o segredo do Mineiro? Será a simplicidade do papo fácil, da comida feita na banha ou o tamanho do copo de cachaça inversamente proporcional ao fogo que ela dá? Será o coração sempre do tamanho das panelas, a grandeza histórica que se perde pelas montanhas ou o pão de queijo quentinho?
No alto da minha maturidade e inerente humildade nem me arrisco a responder. Mas um mineiro de Cruzília chamou isso de Feitiço. E num é que pegou?